Apego: falta de presença no agora!


Um assunto vem entrecortando a minha vida ultimamente: o apego. Como é possível se libertar de alguma experiência agradável ou desagradável que já não faz mais parte da vida de hoje? O que nos retém ao passado que nos impossibilita de estarmos no presente?

 Primeiro, vamos tentar elucidar o que poderia nos manter no passado, para depois caso decidirmos, nos libertarmos dele. O futuro, muitas vezes, é uma réplica do passado. Podem ocorrer mudanças superficiais, mas as mudanças profundas e verdadeiras são as mais difíceis de acontecer. Essa real transformação depende da possibilidade de estarmos no presente para dissolver o passado, aceitando a vida tal como ela é.  Isso não quer dizer que o melhor seja “deixar a vida me levar”. Há diferença entre aceitação e conformismo. Aceitação é estar atento onde se está e, com isso, poder perceber os recursos que possui e usá-los ao seu favor. Não negar o fato, mas sim encará-lo. A mente desperta pode gerenciar as instabilidades para alcançar o seu objetivo.

O único lugar onde pode ocorrer uma transformação genuína e onde o passado pode se dissolver é no agora. Se carregarmos um grande fardo do passado, vamos sentir isso. O passado se perpetua pela falta de presença. Se você tem algo que te prende ao passado, pergunte-se: O que foi tão bom? 

Na maioria das vezes, o contexto vivido foi muito agradável, mas pelo nosso apego, transferimos a vivência para algo ou alguém. Mas será que não podemos recontextualizar aquilo que foi bom de uma nova maneira hoje?

Segundo Churchi “Rendição é nunca olhar para trás. Mesmo que o que ficou para trás seja conhecido e atraente... Render-se é caminhar constantemente para frente”. Se o tempo passou, mas não dissolveu o peso do passado, cabe nesse momento refletir qual o ganho que essa situação nos trás. Sempre há algum ganho, embora seja inconsciente. Se a situação ainda não mudou é porque ainda está se beneficiando de alguma maneira com esse fato. Destacamos abaixo, alguns possíveis ganhos:

1) O que dificulta estar no aqui e agora pode ser um sofrimento atual e para não encarar esse fato, busca se esconder no passado. 

2) A idealização por alguém, isso dificulta acreditar que a pessoa não é aquilo que você gostaria que ela fosse. Não consegue ver a pessoa na sua realidade.

3) A dificuldade de aceitar frustrações, nem tudo será do nosso jeito e por isso ficamos como crianças mimadas e desconsideramos todas as outras oportunidades que possam nos levar a felicidade.

4) A negação do presente gera negatividade para nós, pois deixamos de olhar com bons olhos os convites que recebemos hoje.

 Traumas ou marcas podem ocorrer, mas a forma de lidar com eles é uma escolha sua. Se optar ficar no ressentimento, amargura, tristeza ou culpa pode revelar uma dificuldade do perdão. E porque é tão difícil se curar desses sentimentos destrutivos? Acredito que o maior responsável seja o apego. Muitos justificam o apego por amor. Mas será que amor tem alguma relação com posse, sofrimento, limitações e destruição?

 Meu convite é despertar desse sonho ilusório e lidar com maturidade para este momento. Continuar teimando que tudo poderia ser diferente é um exemplo da estrutura de um ego endurecido. Quanto mais formos rígidos, negando as evidências, mais dificultamos qualquer possibilidade de renovação. Parece que negar o presente não é uma boa alternativa, não é mesmo?

Bion, autor psicanalítico, diz que a intolerância, ou seja, a incapacidade de tolerar frustração faz com que a pessoa incline-se a fugir realidade, afastando-se dos fatos.  

A presença é a chave da liberdade, você passa a reconhecer as belezas da vida, valoriza as pessoas que estão ao seu lado e aceita que o melhor que poderia acontecer é você se dar uma nova oportunidade. Seja bondoso e amoroso com você!  O novo só pode entrar se o espaço estiver desocupado.

Algumas coisas do passado não seguiram o caminho que gostaríamos. Não ser atendido a tudo que desejamos é natural da vida e como lidar com a frustração é uma escolha sua.

A filosofia da Raja Yoga, ensina o desapego através do simbolismo da flor de lótus. Surpreendentemente, a flor tem suas raízes na lama e mesmo assim é bela e delicada. Desapego, portanto não é negar daquilo que mais quer se livrar, mas usá-lo para crescer. Lama é lama. Podemos perceber a nossa lama, ou seja, aquilo que não gostamos, mas podemos nos abastecer dos nutrientes e aprender o que foi de bom dessa situação.

 Normalmente, perturbamo-nos até termos a capacidade de nos desapegar da tarefa na qual fracassamos, até que chega um dia que não há mais luta, há aceitação e aprendizado. Desapego nos oferece saúde emocional, realismo e tranquilidade. Permite que cada um faça seu caminho à vontade. Agarrar-se em coisas e pessoas é o verdadeiro desamor.

Perdoe as pessoas que só podem dar aquilo que tem. Abençoe a todo caminho percorrido, pois foi através dele que você pode chegar até aqui. Vamos ser como a flor de lótus e conseguir desabrochar a verdadeira essência, mesmo com as raízes na lama.

 

 

Data da publicação no site do Renascimento 08/04/13