Escutar vai além de ouvir


No último feriado tive o confronto com uma realidade: não escutei, apenas ouvi!

Estava distraída quando fui questionada sobre aspectos da minha vida. Logo desembestei a falar, puf,  caí na armadilha. Nada do que disse era o que o outro esperava escutar.

O livro “Um jeito de Ser”, escrito por Rogers, fala sobre a diferença entre o ouvir e o escutar.

O autor cita o exemplo de um aluno que faz uma pergunta à professora e, embora ela forneça uma ótima resposta, ela não foi capaz de ouvir realmente o aluno, portanto, não houve comunicação e a pergunta respondida foi diferente da perguntada. Não foi um erro de compreensão na comunicação, foi uma dificuldade de escutar pelo coração.

O autor pontua a diferença entre o ouvir e o ouvir realmente.

O ouvir é do campo da audição. Se você tem aparelho auditivo com boas condições, possivelmente ouvirá.

Escutar passa pelo coração e não apenas pela função auditiva.

Escutar vai além de ouvir. A comunicação genuína só poderá ocorrer quando houver abertura para o mundo do significado da pessoa que diz. Dizer é mais profundo do que falar. Dizer está carregado de sentido.

Neste meu caso, posso dizer que não houve enriquecimento, não houve contato, não ouvi o sentido da pergunta. Como diz Roger, “(...) se não houve contato, não foi afetada, não escutei (não ouvi realmente)”.

Diferente do que muitos pensam, escutar não é uma atividade reflexiva. O escutar é a oportunidade de abrir um espaço dentro de nós para sermos preenchidos pelo outro. Quando você se importa com aquilo que está sendo dito – entendendo importar como colocar para dentro - esse atrito nos afeta e deste encontro ocorre a transformação.

Fatalmente seremos tocados ao receber algo de maneira íntima.

Só será possível entrar em contato íntimo com o outro quando estivermos presentes e disponíveis a receber. O restante serão experiências rasas que não sofrem o impacto real de estar com alguém.  

Ainda naquele feriado, ao caminhar pela praia, um senhor saindo do mar vem em minha direção sorrindo e dizendo que havia caído nas ondas. Logo perguntei se ele estava bem e respondeu que estava muito bem. Contou-me que está com 83 anos e feliz por ser tão bem cuidado pelas três filhas. Disse que sua esposa faleceu ainda quando as crianças eram pequenas e dedicou seu melhor às filhas e agora elas dedicam o melhor delas a ele.

Achei incrível a facilidade de me contextualizar com a lei do retorno. Pensando na frase “O que se planta se colhe”, concluí que, no caso dele, foi uma ótima safra. Saí desse encontro impactada. As palavras dele repercutiram profundamente em mim. Neste encontro acredito que escutei (ouvi realmente). Pode ser que por eu estar passeando sem qualquer preocupação recebi, dentro do meu coração, aquele olhar tão vívido.

Escutar traz consequências. Podemos escutar não somente suas palavras, mas a própria pessoa. Aquela presença foi forte, ativou em mim o que diz respeito à lei do retorno.

Quando estamos cheio de nós, quero dizer, abastecidos de nós, é possível ir além das nossas bordas e nos permitir entrar em contato com o outro.

Talvez deva ser uma das razões pelas quais escolhi ser psicóloga. Permitir ser tocada e tocar. Torço para que aconteçam novos enlaces comigo e com você e, por consequência, ocorram novas transformações.

O poder da escuta é capaz de promover efeitos milagrosos.

 

Desconfie, experimente!

 

Um grande abraço!

Regiane

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