O que a morte tem a nos dizer


    O que a morte tem a nos dizer

 

Diante da morte só resta a vida.

Diante do leito, as pessoas se reúnem, velam (que significa oferecer proteção, vigiar, permanecer aceso), relembram as histórias que tiveram com a pessoa, contam a causa da morte, talvez tentando buscar a razão por aquele fim.

As pessoas se abraçam como nunca. Dizem palavras de carinho que acalentam os corações dos mais próximos. É de se admirar como o abraço pode ser tão poderoso.

As pessoas ficam mais quietas e cada uma vive a sua experiência de morte. A morte mexe com todos. Sabemos claramente que um dia seremos nós, só não sabemos quantos dias nos distanciam desse momento.

Mas o que mais me chamou a atenção foi perceber que diante da morte só falamos da vida. No fundo acredito que a morte é uma experiência de vida, muitas vezes não tão clara para todos nós, mas há uma beleza oculta em todo o ritual de passagem.

Falamos das lembranças que tivemos com a pessoa que se foi. Relembramos os momentos de carinho, como ela enfrentou os desafios, como eram os natais ao lado dela, o que fizemos juntos pela última vez, como ela estava na última festa. Como ela ajudou as pessoas em seu trabalho. Como apartou as brigas da família e deu outro sentido aos conflitos. Falamos incansavelmente de como ela fez a sua travessia em vida. Com admiração exaltamos suas qualidades e conquistas.

Diante da morte nos atentamos ao significado que a pessoa deu para a sua vida.

Com essa visão, não há sentido para temer a morte. Se há que temer algo, que seja as escolhas que fazemos em vida, como vivemos os nossos dias e como desempenhamos aquilo que fazemos todo santo dia.

Ah! Uma outra reflexão que fez todo sentido para mim diante da morte foi que concluir processos em vida traz um alívio tremendo. Acredito que o alívio maior seja para os que ficam, porque conseguem encontrar um sentido para todos os anos que foram vividos e que agora não estão mais ali. Mas eu ouso dizer que esse alívio também deve ser sentido pela pessoa que se foi, em constatar que conseguiu encerrar seu processo de vida dignamente.

Fica para todos nós um ensinamento: que possamos concluir a cada dia aquilo que vivemos. Quando digo concluir estou me referindo a concluir as histórias que vivemos sem deixar rabo preso em nada, sem discussões mal acabadas, sem escolhas que nos gerem remorsos. Talvez seja a grande sabedoria da vida, saber fazer escolhas que nos ajudem a ter sentido e que as consequências dos nossos atos gerem alívio, paz e conforto.

Então, que olhemos para todas as nossas escolhas que nos causam tormento e nos dediquemos a cuidar e a restabelecer o equilíbrio. Com certeza não é fazer as pazes com o outro. É fazer as pazes conosco. É entender qual foi o nosso comportamento que gerou tremenda confusão e parar. Parar de cometer os mesmos enganos e transformar. Transformar para ter dias de paz interior. E, com a paz interior viva dentro de nós, termos orgulho da vida que escolhemos.

Porque a morte tem uma coisa em comum: ela sempre nos pega de surpresa. Nunca estaremos pronto e de braços abertos a esperá-la. Nunquinha!

Que seus dias sejam repletos de profundas experiências de amor. Vida abundante a todos nós.

Com amor, Regiane